31 agosto 2013

Honestidade, tentação e suas agruras

Honestidade, tentações e suas agruras
31/08/13 - Encaminhado por Sérgio Arruda: Certa feita, em determinada Unidade, um policial militar cometeu o seguinte ato: estando de serviço, ele encontrou um cartão de conta bancária, com a sua respectiva senha, e, ao invés de entregá-lo na agência da instituição financeira, resolveu efetuar saques. Passado algum tempo, a cliente percebeu a perda do

cartão, verificou que saques foram efetuados, procurou a agência bancária e esta, por ter serviço de videomonitoramento, conseguiu identificar o responsável pelo saques.
Identificado o policial militar como sendo aquele que efetuou o saque, foi instaurado o competente processo administrativo disciplinar e, ao fim, o acusado foi demitido da instituição.
Nessa mesma Unidade, tinha-se o costume de se realizar mensalmente paradas cívico-militares na principal praça da cidade. Todo o efetivo comparecia e, ao término, ocorria o desfile do efetivo. Autoridades e personalidades diversas eram convidadas para assisti-las.
Uma dessas paradas ocorreu justamente após a demissão do policial militar e, dentre todas as pessoas que assistiam ao desfile, estava o ex-policial militar recém demitido. Ele estava acompanhado por dois de seus filhos, um contando três e o outro oito anos de idade. Ele chorava copiosamente!
Impossível ficar sem refletir sobre aquele homem, aquele pai, aquele ex-policial militar… O que teria dito ele a seus pais, a sua esposa, a seus filhos e a seus amigos para justificar a sua demissão? Como explicar aos seus filhos e a sua esposa o ato que ele cometeu? Como fazê-los entender que a vida, que já não era fácil, torna-se-ia mais difícil, haja vista a perda dos vencimentos que, ainda que poucos, eram depositados mensalmente em sua conta? Como ele viveria sabendo que, conscientemente, cometeu o ato ilícito que deu azo a sua demissão?
São questões para as quais as respostas são por demais complexas e que, por si só, justificam todas as lágrimas que ele derramou naquele momento e em outros mais.
Este relato, não fictício, diga-se, serve bem para ilustrar as graves consequências que a prática de determinada conduta que afeta os valores que a sociedade espera serem respeitados por uma instituição ligada a área da segurança pública tem para aquele indivíduo que a cometeu, para a sua família e, também, para a respeitabilidade que a instituição, e todos os seus membros, possuem junto a opinião pública.
Em regra, temos complacência com o corrupto e nós esquecemos (ou não queremos enxergar!) que, devido aos seus atos, somos todos taxados de criminosos contumazes e prontos para achacar qualquer cidadão durante uma operação de trânsito ou em uma abordagem a pessoa.
Temos o péssimo hábito de justificar os nossos atos alegando que foram motivados pelas más condições de trabalho que o Estado nos proporciona, que os gestores deveriam entender e relevar determinadas práticas, ainda que ilícitas, face nos tratarmos de seres humanos e, por tal razão, falhos por natureza, ou, ainda, e esta é a justificativa mais estúpida, que a prática dessas condutas é necessário em razão dos baixos salários pagos e que elas servem para complementar os nossos vencimentos. Só um asno para defender esta tese!
Já presenciei absurdos como um profissional de segurança pública defender a tese de que a “sociedade não teria moral” para reprovar o comportamento de um policial que se corrompeu, já que essa mesma sociedade tolera outros tipos de crimes e criminosos. É o cumulo do relativismo moral!
Ainda que seja amplificada em diversos meios a afirmativa de que para a existência do corrupto é necessária a presença e a ação do corruptor, tal argumento trata-se, no entanto, de uma falácia que tende, tão só, a querer justificar a prática criminosa que deveria ser combatida (e não executada!) por aqueles que se comprometeram a defender e a cumprir a lei.
O corrupto, seja ele coronel ou soldado, agente ou delegado, através dos seus atos e da nossa benevolência, emporcalha e desonra o uniforme e o distintivo dos bravos e honestos (sim, são a maioria!) profissionais de segurança pública que, diuturnamente, laboram e se arriscam a morrer em prol da sociedade.
Diante disto, qualquer percentual que corresponda a “extorsão no país” praticada por policiais, seja ele de 30,23%, 5,08% ou 0,04%, deve ser visto com inquietação por parte daqueles que não a praticam e que, durante a noite, procuram dormir o sono dos justos e possuem em suas consciências apenas o peso da responsabilidade de, além de serem honestos, provarem que o são!
Obs.: o termo “corrupto” neste texto se aplica genericamente a todos os profissionais de segurança pública que praticam crimes contra o patrimônio!
Autor:  - é Capitão da Polícia Militar da Bahia, graduado em Direito pela UEFS-BA. Contato: asfors10@yahoo.com.br

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